domingo, 10 de julho de 2011

Trilha para dias de raiva

   Já escrevi várias vezes sobre influência da música na minha formação, desde humores banais ao contágio púbere da consciência política (Enquanto houver sol..., Comburência Social, Boas vindas, Lição do poeta III – Eu ouço música, Puberdade Política e Crítica ou preconceito cultural). E nesse lance todo, uma banda já vem há muito me instigando a escrever, mas nunca consigo acertar o ponto. Na verdade esse texto está “em construção” faz tempo bagarái.
   Matanza, apesar de ser uma das maiores bandas independentes do país (momento fanzoca), é desconhecida por quem só circula em frequências radiotelevisivisas. Pra quem não conhece, Matanza é a banda que inaugurou no Brasil a mistura do country/bluegrass com hardcore, com parte do seu repertório, principalmente nos primeiros discos, ambientada no ideário de terras sem lei do faroeste estadunidense. É bem responsa a forma como utilizam essa temática tanto nas letras como nos arranjos, sempre em bem articulado português. Essa qualidade "artística" é o catalizador da substância virulenta indispensável na minha busca por um intangível equilíbrio entre o pessimismo e a fé cotidiana: A raiva corrosiva que contamina o som dos caras nos shows (se você achou que “fé cotidiana” aqui é uma referência sobrenatural, por favor, pare de ler esse texto).

   Em estúdio o som dos caras já é raivoso sem recorrer a grunhidos e distorções em profusão somente prazerosos aos ouvidos peculiares de extremados batedores de cabeça. Mas nas apresentações é que o som deles vira trilha apocalíptica para o despejo de toda a raiva que se acumula ao longo dos dias, semanas, meses que antecedem aquele ritual bestial. Seja na roda (ou pogo) ou apenas no coro surdo, a virulência é densa, esfaimada.
   A temática das letras traz a lado obscuro e brutal do ser humano, como se fosse um bizarro jogo dos sete erros pecaminosos capitais, tendo como prêmio final a tão amendrontadora danação eterna, aqui convertida em oasis estomacal sob o jugo do grande serviçal religioso, o bom e velho Capeta. 
   Sexo, drogas, violência gratuita (se é que existe isso), esquizofrenia, psicopatia, criminosos, hippies genocidas, satanismos lúdicos coroam a morte como fim putrefato da misantropia nossa de cada dia. A natureza humana circunscrita a crueza de seus instintos deformados pela civilidade.
   O universo da temática da banda não é estilo de vida ou doutrina social a ser seguida; é, antes de tudo, um esforço contra o culto maniqueísta do bem contra o mal, um esforço pela libertação de instintos oprimidos por doutrinas verticais que mutilam o ser humano tornando-o numa figura bizarra, ignorante da sua condição, à beira do colapso furioso.
   Esse é o lance do Matanza pra mim, algo talvez só possível de se alcançar por uma banda fora do cenário comercial, com a carreira consolidada por centenas de shows por ano, indiscriminadamente em qualquer sarjeta que os contrate há mais de uma década. Shows em que a banda soca contra seu crânio mais de 25 músicas em uma hora (em média) ininterrupta, na mais pura escola Ramones* de cronometria de repertório. Literalmente do Rio Grande do Sul ao Amapá, a banda comunga com a mais deplorável escória de rockeiros a estetas bizarros que enfestam pocilgas decrépitas, num exaustivo ritual bestial, por vezes patético, de transpiração tóxica.
   Taí o impacto da banda absorvido após dezenas de shows, público apaixonado, amizades daí emergidas e muita raça dos integrantes - do roadie à produção dos shows. Mas se você leu isso tudo e achou coisa de dorme sujo adolescente funcional revoltadinho com necessidade crônica de achar um significado/desculpa relevante para seu babaquismo, talvez você esteja mais perto da realidade do que eu. Foda-se! Agora se o seu problema é com o som dos caras, aí é questão de gosto, cada um na sua.


(*) Dizem que os Ramones ensaiavam à exaustão para conseguir executar o máximo de músicas no exíguo tempo de apresentação q dispunham no início de carreira, emendando uma na outra e acelerando o riff, tornando o som mais agressivo...

5 Comentários:

Guto Senra disse...

NÃO CONSIGO COMENTAR SEUS POSTS WAIT!

Leósias disse...

Que análise foda, cara!!

Todo fã do Matanza tem a obrigação de ler isso!

Anna disse...

Matanza é isso, exercitar a raiva e a violência de uma forma aceitável. Vc aproveita pra jogar toda a sua raiva e fúria durante o show (pq o cd é bom, mas o show é necessário) e ao final vc está cansado e vazio.
Até algum imbecil preencher o vazio com a estupidez natural do "serumano".

Só tenho a dizer, que Matanza não é pra qq um.

Anelise disse...

Só assim consigo comentar, logada na conta do g-mail não rola, ele me manda ter um blog :)

Luciana Vital disse...

Matanza a melhor Banda de Rock Nacional *__* A.M.O

Um som nervoso para um público seleto!!!!