Não sou presunçoso ao ponto de pensar que minha barba geraria polêmica ou atrairia o interesse de quem não tem mais o que fazer, e por isso ainda aparece por aqui, mas sou presunçoso o suficiente pra discorrer sobre o assunto de forma tão prolixa quanto discorro sobre mazelas sociais, afinal, sou advogado, e advogados são prolixos, porra!
Minha barba tem forte significado pra mim, óbvio, mas é certo que eu superestimo esse significado ao ponto de ficar puto com ela, a barba, então deixa ver se consigo tornar isso interessante, pelo menos pra mim.
A barba tem um lance de crueza. Sinto-me velho desde sempre, um velho babaca e imaturo, arrogante pelo simples fato de ser intolerante, então a barba completa o cenário. Torna mais fácil interpretar na imagem a agressividade que virá pelo verbo. E é essa a parada da barba: ela é agressiva, é viva, carrega energia que por vezes me sobrecarrega e até me faz refém.
Refém é uma palavra inadequada quando escrevemos sobre coisas imateriais, mas é precisa quando se está diante de um mané que superanalisa tudo, ou quase tudo... Não, tudo mermo. “Barba cresce, porra! Então raspa essa merda logo e deixa de palhaçadinha”, diria eu a mim mesmo, se eu não fosse eu falando pra mim sobre a hipocrisia dos meus conselhos... Mas isso é outra parada...
Voltando – tentando, pelo menos. Dependendo da conjunção astral (não resisti ao deboche), fazer a barba é mutilante pra quem passa anos, ou meses, que seja, cultivando-a. Esse cultivo é um exercício de resistência. Resistência à pasteurização social, onde padrões estéticos são pré-concebidos e injetados em nossa corrente sanguínea de forma que nem mais percebemos - se é que um dia percebíamos. E a barba pra mim vai assim. Não é tentativa de ser diferente, o que seria imbecil, é a tentativa sim de buscar identidade entre o que se prega, o que se aprende, e o exercício visual diário. A barba evitou inúmeras vezes que tenham uma imagem minha que depois contraste com o que se descobre quando abro a boca. Isso pode ser contraditório com a vaidade no cuidado da barba, ou não, porque eu nunca quis causar repulsa, mas sim externar, tornar imagético o verbo.
É óbvio que a barba tem seu contexto estético. Sou vaidoso e respeito conceitos estéticos, considero-os parte da constituição humana e, assim como busco significados para o que fode com meu cérebro, também busco uma coerência com o que meu corpo externa a partir dessa foda cerebral. Estética é lance do animal tanto quanto uma trepada ou porradaria, mas também aguça a racionalidade que frita a minha meia dúzia de neurônios.
A barba entra aí no meio desse monte de tentativas de explicar seus significados. Essa massa de pelo preto estampada na minha cara com utilidades estético-sexuais, no final das contas é parte do todo, é o tipo de cara que eu sou.
Dizem que os olhos são a janela da alma, às vezes sinto que minha barba seria o capacho, absorvendo energia pesada, mas só às vezes. Nessas horas, quando sobrecarregada, é que ela vai pelo ralo na tentativa de despressurizar um pouco, e não dá pra explicar a bagagem que ela desanuvia junto. Aí curto uma de menino (ou quase) de cara limpa e com esse, sim, me emputeço com breviedade quase instantânea, mas como bom descendente de árabes, minha barba não tarda a ficar espessa novamente, me reconstruindo.
*texto escrito em setembro de 2010.
3 Comentários:
Minha barba é fruto da preguiça e duma frustação profunda com a minha existência.
Compartilho da mesma ideia, mesmo ela ficando feia a cada dia e com ponta dupla..
A barba se parece com a MERDA. É o resto que toma sentido! Gosto de como as crianças fazem com a própria MERDA: comem, passam pelo corpo, pintam as paredes etc. A política, ao contrário, parece haver pouco ou nenhum sentido atualmente... A merda da política é sempre em letra minúscula!
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