quarta-feira, 25 de maio de 2011

Capacho da Alma

Nessa época de eleição*, perdi completamente o saco para tentar convencer quem quer que seja de que tipo de conduta deve tomar diante do seu voto, nem sei se conseguiria fingir algum ímpeto, mais frágil que seja, de querer isso, então, resolvi escrever sobre algo que me interessa, bastante, minha barba.
Não sou presunçoso ao ponto de pensar que minha barba geraria polêmica ou atrairia o interesse de quem não tem mais o que fazer, e por isso ainda aparece por aqui, mas sou presunçoso o suficiente pra discorrer sobre o assunto de forma tão prolixa quanto discorro sobre mazelas sociais, afinal, sou advogado, e advogados são prolixos, porra!
Minha barba tem forte significado pra mim, óbvio, mas é certo que eu superestimo esse significado ao ponto de ficar puto com ela, a barba, então deixa ver se consigo tornar isso interessante, pelo menos pra mim.
A barba tem um lance de crueza. Sinto-me velho desde sempre, um velho babaca e imaturo, arrogante pelo simples fato de ser intolerante, então a barba completa o cenário. Torna mais fácil interpretar na imagem a agressividade que virá pelo verbo. E é essa a parada da barba: ela é agressiva, é viva, carrega energia que por vezes me sobrecarrega e até me faz refém.
Refém é uma palavra inadequada quando escrevemos sobre coisas imateriais, mas é precisa quando se está diante de um mané que superanalisa tudo, ou quase tudo... Não, tudo mermo. “Barba cresce, porra! Então raspa essa merda logo e deixa de palhaçadinha”, diria eu a mim mesmo, se eu não fosse eu falando pra mim sobre a hipocrisia dos meus conselhos... Mas isso é outra parada...
Voltando – tentando, pelo menos. Dependendo da conjunção astral (não resisti ao deboche), fazer a barba é mutilante pra quem passa anos, ou meses, que seja, cultivando-a. Esse cultivo é um exercício de resistência. Resistência à pasteurização social, onde padrões estéticos são pré-concebidos e injetados em nossa corrente sanguínea de forma que nem mais percebemos - se é que um dia percebíamos. E a barba pra mim vai assim. Não é tentativa de ser diferente, o que seria imbecil, é a tentativa sim de buscar identidade entre o que se prega, o que se aprende, e o exercício visual diário. A barba evitou inúmeras vezes que tenham uma imagem minha que depois contraste com o que se descobre quando abro a boca. Isso pode ser contraditório com a vaidade no cuidado da barba, ou não, porque eu nunca quis causar repulsa, mas sim externar, tornar imagético o verbo.
É óbvio que a barba tem seu contexto estético. Sou vaidoso e respeito conceitos estéticos, considero-os parte da constituição humana e, assim como busco significados para o que fode com meu cérebro, também busco uma coerência com o que meu corpo externa a partir dessa foda cerebral. Estética é lance do animal tanto quanto uma trepada ou porradaria, mas também aguça a racionalidade que frita a minha meia dúzia de neurônios.
A barba entra aí no meio desse monte de tentativas de explicar seus significados. Essa massa de pelo preto estampada na minha cara com utilidades estético-sexuais, no final das contas é parte do todo, é o tipo de cara que eu sou.
Dizem que os olhos são a janela da alma, às vezes sinto que minha barba seria o capacho, absorvendo energia pesada, mas só às vezes. Nessas horas, quando sobrecarregada, é que ela vai pelo ralo na tentativa de despressurizar um pouco, e não dá pra explicar a bagagem que ela desanuvia junto. Aí curto uma de menino (ou quase) de cara limpa e com esse, sim, me emputeço com breviedade quase instantânea, mas como bom descendente de árabes, minha barba não tarda a ficar espessa novamente, me reconstruindo.

*texto escrito em setembro de 2010.

3 Comentários:

Guto Senra disse...

Minha barba é fruto da preguiça e duma frustação profunda com a minha existência.

Tukano disse...

Compartilho da mesma ideia, mesmo ela ficando feia a cada dia e com ponta dupla..

Marcos Alves Lopes disse...

A barba se parece com a MERDA. É o resto que toma sentido! Gosto de como as crianças fazem com a própria MERDA: comem, passam pelo corpo, pintam as paredes etc. A política, ao contrário, parece haver pouco ou nenhum sentido atualmente... A merda da política é sempre em letra minúscula!