segunda-feira, 18 de abril de 2011

Enquanto houver sol...


Nem sei direito como continua a música, muito menos como começa, e na verdade pouco importa porque ela provavelmente não tem muito a ver com o sentido com o qual me apropriei do verso do seu estribilho... Ou não. O lance é que o verso colou na minha cabeça faz tempo, e sei lá quantas vezes já me peguei repetindo esse verso quando meu cérebro começa a fritar ou quando alguém despeja na minha frente seu desespero (in)contido, talvez despercebido. 

Enquanto houver sol... 

Gosto dessa frase, desse verso, porque ela define a condição humana de uma forma tão óbvia e honesta que chega a ser excepcional diante de tanta babaquice opinativa que leio/escuto regularmente. O que nos define melhor do que a frágil condição de depender de vossa sultânica incandescência?

Lutamos diuturnamente no desequilibrado roteiro bipolar de nos destruirmos e nos salvarmos, esquizofrênicos sob a vigilância de entes sobrenaturais à nossa semelhança, mas perfeitos(?!!). Tenebrosos catastrofismos e poliânicas esperanças, naturais ou sobrenaturais, pautam discussões, monólogos, guerras, autoflagelos, suicídios, genocídios, paixões ignóbeis, poeterias gástricas, cruezas líricas, etc. que tentam teorizar a “razão” da existência humana. 

Mas, porra! É o sol! 

Tá lá aquele troço incandescente há milhões de anos tornando possível a vida nesse planeta em decomposição. Esse texto era pra trazer a relação daquele verso com a esperança crua de que ainda há tempo, se não para reverter a sanha autodestrutiva da humanidade, mas pelo menos para tornar o processo menos impiedoso para os seus, mas... A esperança se tornou uma pequena ferida hemofílica, um corte afiado que decanta o sangue lentamente, transformando o choque da dor do talho original em sádico costume, apego masoquista de sôfrego cultivo. A chaga lancinante que deveria urgir a sutura vira rotineiro prazer que conforta o caos cotidiano. 

O Sol talvez seja o símbolo máximo da perversão humana - ou que ao menos o seja por hoje, amanhã quem sabe escreverei sobre outros máximos símbolos da perversão humana -; do fogo que nos consome as entranhas orgásmicas ao alucinógeno das prostrações autoruminativas... E insolações que justifiquem textos pastosos como esse. 

E assim, sob sua matuzalênica quinta grandeza solar, nossa esperança é dolorosamente vertida e prazerosamente infecta, e mesmo depois que o sangue secar e as chagas apodrecerem e só restar o pó, o Sol ainda estará lá explodindo... 

E assim mesmo, o giro é alto, a pilha não cessa e enquanto houver sol... 

*Título é verso extraído da música “Enquanto houver sol” dos Titãs (letra de Sérgio Brito)

3 Comentários:

EG disse...

Já eu diria... enquanto houver a lua, enquanto a lua tiver. Ainda que desencantada e única, a contemplar a humana decrepidez. Insana.

Legal.
EG

GabaLoureiro disse...

Muito bom, diferente né, novo!
PS:estribilho é muito coisa de ex- aluno!

Guilhermé disse...

Muito coisa de ex-aluno, Gaba! Muito!