Moradores de rua - que aqui vou tratar pelo chulo “mendigo” – fazem parte da minha rotina, misturados à poluição urbana, vagam e resmungam pela rua (balbuciando seria mais maneiro, né? Foda-se), residentes da passagem. São os que raramente lhe pedem algo e por isso raramente lhe despertam algum tipo de impressão, a não ser o asco quando se aproximam ao ponto de se fazer notar pelo cheiro. Observo a forma como fumam, cobrem o corpo (q não se pode chamar de vestir), a expressão de repulsa por um cenário onde eles são apenas uma mancha, e os surtos, dos mais curiosos e desconexos surtos da expressão humana, ironicamente por um inumano. São criaturas (você tem coragem de chamá-los de pessoas?) que provocam impactos fortes em quem tenta ver além do asco, e têm sido assunto recorrente no que escrevo, foi assim no Esmola e no Casulos Humanos e será assim outras vezes... ou não.
Não quero dramatizar demais isso, mesmo porque não sou nenhum cientista social ou qualquer tipo de estudioso sobre o impacto da situação de rua à psique humana, mas por vezes me peguei tentando desconstruir os que se fazem de maluco em seu inútil grito por atenção. Pois o que é um mendigo espalhafatoso e performático além de um cara fudido, sem porra nenhuma além das tranqueiras que ele acumula até o limite da sua capacidade de carga, totalmente ignorado? Tem um exemplo lá na minha área de um coroa que pelo que observei fazia vários bicos em obras pela área, mas foi aprofundando na situação de rua, passou a varrer calçadas por conta própria a interagir pelos botecos, e hoje grita sozinho no meio da rua. Não o cara não é maluco, mas conforme o cara vai vivendo na rua, menos as pessoas o querem ao seu lado ou trocar idéia porque ele realmente vai ficando a margem do que se considera civilização. O cara não vê TV (fonte de 90% dos papos de qq lugar), higiene pessoal precária, e não tem um puto no bolso. Quem vai ficar trocando idéia ou dando corda pro cara? Exatamente.
Então se liga que o cara tá ali isolado no meio do caos, o cara perde o contato com as pessoas mesmo estando submerso num mar delas. A sociedade funciona caótica e frenética o dia inteiro, mas ele não participa. No começo arruma ocupação pra mente, esperando a compaixão alheia pra tentar descolar um trocado ou um rango, o que no começo funciona, mas não se firma pq ninguém quer “sustentar vagabundo”. Vagabundo?! Bom, seguindo... E assim o cara vai mergulhando no vazio. E mermão, a não ser que você tenha optado, por razões ideológico-sobrenaturais, se isolar voluntariamente do mundo, ser forçado a isso deve ser enlouquecedor!
Então o cara fala sozinho, deita no banco do ponto de ônibus, atravessa a rua suicidamente, dorme atravessado na calçada, tentando de alguma forma se inserir naquele contexto, até que descobre que se desenvolver certa teatralidade performática (aqui a redundância proposital) vai conseguir atenção, principalmente do escárnio boçal, do incentivo sádico, mas que em nada altera sua situação de pária.
Você já parou pra pensar quantos mendigos você cruza durante o dia sem que eles não te peçam nada?
É claro que nem todos são performáticos, pois se fossem teríamos realizados os ideais de lixo humano circense pelo qual tanto lutam nossas elites políticas. Existem os que emanam agressividade e se tornam ameaças aos cidadãos direitos, tem os que cagam no meio da calçada pra zoar a rotina dos bons cidadãos, e tem os que matam. Mas aí é inadmissível! Como a pária pode ousar confrontar seus suseranos? “Veja o bené, aquele dingão da esquina da lá da área, ele não faz mal a ninguém, doidão, mó zoado ele, mas é tranquilão. Esse aí não, é marginal, tem é que matar essas porra toda! mermo” (sic.) Como é belo o argumento humano, não?
Mendigos são tão ricos como expressão humana que são retratados em lúdicos personagens, sempre com a putrefata imagem escondendo uma misteriosa genialidade, um ser excepcional pronto a ter sua criatividade desvendada. Mas a realidade é que o magrinho que surta eventualmente na minha área, e que tá sempre rabiscando num caderno com caneta esferográfica, e que só mendiga trocado quando acaba sua carga, está só rabiscando mesmo, descarregando sua seqüela. Ali não tem poesia nem “arte bruta” pronta pra ser descoberta e ganhar as galerias do mundo! Se bem que... Melhor não me meter nesse lance de arte, não agora pelo menos. Como ele, o obeso mórbido aqui do centro do Balneário Decadente, talvez eu só o tenha vista de pé uma vez em 10 anos. Inerte, letárgico, prostrado sobre seu lúdico preto rabo gordo.
E aí? Então, aqui é o ponto em que eu quebro meu sarcasmo pra tentar concluir com algum norte, algum arremedo de solução... E aí? E aí, que pra toda questão social você tem que ter uma ação emergencial e um plano de longo prazo; o primeiro é chamado de assistencialismo, e o segundo se perde no desinteresse político da burocracia pública.
Tá, mas e aí?! E aí que se você não criar um programa emergencial de ressocialização desses indivíduos nada muda... De novo. Endereço provisório, acesso a higiene pessoal, alimentação regular e acompanhamento psicológico são o mínimo para essas criaturas, cuja condição racional foi derretida, conseguir ao menos se ver e pensar como gente, e a partir daí poderia se pensar em realocá-lo no exército de mão-de-obra barata nacional, realocando-o no sistema. Mas e aí?!
Não quero dramatizar demais isso, mesmo porque não sou nenhum cientista social ou qualquer tipo de estudioso sobre o impacto da situação de rua à psique humana, mas por vezes me peguei tentando desconstruir os que se fazem de maluco em seu inútil grito por atenção. Pois o que é um mendigo espalhafatoso e performático além de um cara fudido, sem porra nenhuma além das tranqueiras que ele acumula até o limite da sua capacidade de carga, totalmente ignorado? Tem um exemplo lá na minha área de um coroa que pelo que observei fazia vários bicos em obras pela área, mas foi aprofundando na situação de rua, passou a varrer calçadas por conta própria a interagir pelos botecos, e hoje grita sozinho no meio da rua. Não o cara não é maluco, mas conforme o cara vai vivendo na rua, menos as pessoas o querem ao seu lado ou trocar idéia porque ele realmente vai ficando a margem do que se considera civilização. O cara não vê TV (fonte de 90% dos papos de qq lugar), higiene pessoal precária, e não tem um puto no bolso. Quem vai ficar trocando idéia ou dando corda pro cara? Exatamente.
Então se liga que o cara tá ali isolado no meio do caos, o cara perde o contato com as pessoas mesmo estando submerso num mar delas. A sociedade funciona caótica e frenética o dia inteiro, mas ele não participa. No começo arruma ocupação pra mente, esperando a compaixão alheia pra tentar descolar um trocado ou um rango, o que no começo funciona, mas não se firma pq ninguém quer “sustentar vagabundo”. Vagabundo?! Bom, seguindo... E assim o cara vai mergulhando no vazio. E mermão, a não ser que você tenha optado, por razões ideológico-sobrenaturais, se isolar voluntariamente do mundo, ser forçado a isso deve ser enlouquecedor!
Então o cara fala sozinho, deita no banco do ponto de ônibus, atravessa a rua suicidamente, dorme atravessado na calçada, tentando de alguma forma se inserir naquele contexto, até que descobre que se desenvolver certa teatralidade performática (aqui a redundância proposital) vai conseguir atenção, principalmente do escárnio boçal, do incentivo sádico, mas que em nada altera sua situação de pária.
Você já parou pra pensar quantos mendigos você cruza durante o dia sem que eles não te peçam nada?
É claro que nem todos são performáticos, pois se fossem teríamos realizados os ideais de lixo humano circense pelo qual tanto lutam nossas elites políticas. Existem os que emanam agressividade e se tornam ameaças aos cidadãos direitos, tem os que cagam no meio da calçada pra zoar a rotina dos bons cidadãos, e tem os que matam. Mas aí é inadmissível! Como a pária pode ousar confrontar seus suseranos? “Veja o bené, aquele dingão da esquina da lá da área, ele não faz mal a ninguém, doidão, mó zoado ele, mas é tranquilão. Esse aí não, é marginal, tem é que matar essas porra toda! mermo” (sic.) Como é belo o argumento humano, não?
Mendigos são tão ricos como expressão humana que são retratados em lúdicos personagens, sempre com a putrefata imagem escondendo uma misteriosa genialidade, um ser excepcional pronto a ter sua criatividade desvendada. Mas a realidade é que o magrinho que surta eventualmente na minha área, e que tá sempre rabiscando num caderno com caneta esferográfica, e que só mendiga trocado quando acaba sua carga, está só rabiscando mesmo, descarregando sua seqüela. Ali não tem poesia nem “arte bruta” pronta pra ser descoberta e ganhar as galerias do mundo! Se bem que... Melhor não me meter nesse lance de arte, não agora pelo menos. Como ele, o obeso mórbido aqui do centro do Balneário Decadente, talvez eu só o tenha vista de pé uma vez em 10 anos. Inerte, letárgico, prostrado sobre seu lúdico preto rabo gordo.
E aí? Então, aqui é o ponto em que eu quebro meu sarcasmo pra tentar concluir com algum norte, algum arremedo de solução... E aí? E aí, que pra toda questão social você tem que ter uma ação emergencial e um plano de longo prazo; o primeiro é chamado de assistencialismo, e o segundo se perde no desinteresse político da burocracia pública.
Tá, mas e aí?! E aí que se você não criar um programa emergencial de ressocialização desses indivíduos nada muda... De novo. Endereço provisório, acesso a higiene pessoal, alimentação regular e acompanhamento psicológico são o mínimo para essas criaturas, cuja condição racional foi derretida, conseguir ao menos se ver e pensar como gente, e a partir daí poderia se pensar em realocá-lo no exército de mão-de-obra barata nacional, realocando-o no sistema. Mas e aí?!
4 Comentários:
Putz.... fantastico oq vc escreveu! Não conhecia o blog, mt bom!! Mexeu comigo td oq vc escreveu! FODA! parabens, não só pelo texto, mas tb pela parte em q vc fala Balneário decadente- concordo com vc!
"E aí, que pra toda questão social você tem que ter uma ação emergencial e um plano de longo prazo; o primeiro é chamado de assistencialismo, e o segundo se perde no desinteresse político da burocracia pública".
Disse exatamente isso a um amigo ontem, quando ele proferia aquele discurso do "odeio governo assistencialista que faz bolsa isso e bolsa aquilo". Vou chegando à conclusão que o desinteresse não é somente da burocracia pública. A sociedade também às vezes parece estar "largando de mão".
Parabéns pelo texto!
A idéia é essa Cezar, mexer com qm lê. Se identificar ou não é outra parada, mas se o texto te provoca já alcançou seu objetivo.
Citei só a burocracia pública, Stella, pq tava no contexto do pensamento. Mas se a burocracia está desinteressada, em grande parte é pq a sociedade "esclarecida" tá pouco se fudendo pra isso.
Sejam bem vindos.
Bom ver que seus textos estão conquistando novos leitores. Sempre bom conhecer novas ideias para contrapor ou sustentar os pensamentos. Isso estimula, instiga. Queremos mais! vamos que vamo!
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