quinta-feira, 22 de abril de 2010

Comburência social

Já que é pra retomar essa parada aqui então vou logo falar do que eu não entendo, pra que fique claro que a idéia é tão amadora quanto a execução!
Apesar de muita relutância, acabei entrando no twitter e achei foda esse lance de sapecar os marimbondos em tempo real, mesmo sendo um contrassenso chamar de real o tempo em ambiente virtual. Muito louco isso, mas pouco produtivo de divagar agora (ou em qualquer hora).
Resistindo à tentação da divagação e voltando ao foco, no twitter passei a seguir os blogueiros que curtia, entre eles a Ana Julia (@anajuz) do Ele não quis postar, que vira e mexe solta um som maneiro lá no blog dela, muitas vezes algo que nunca ouvi falar, na maioria som ligado à cultura negra. Foi nessa de fuçar as referências de sons que ela ia soltando por lá - 90% hip-hop nacional – que a minha mente começou a fritar.
Perdi a linha com aquele som, uns malucos daqui do Balneário Decadente, de São Paulo, Bahia, Minas, Mato Grosso e de outros cantos do país que estavam produzindo na neurose. Rima ácida, sonoridade furiosa, e mais uma porrada de combinações adjetivas que não me vêm à cabeça agora.
A qualidade técnica é surpreendente, principalmente quando se fala duns caras sem suporte financeiro pra desenvolver sua arte, mas que está tomando pra si, na marra, a tal da globalização virtual e suas inovações técnicas. O senso de movimento também é tão impressionante como natural. Mas o que mais me espanta não é só a energia comunitária dando liga através da música enraizada na periferia, mas o manejo da língua portuguesa por esses ases. Os caras me embasbacam.
Você já tentou escrever uma letra de música em português sem cair nos entediantes clichês banais ou arranhar a melodia? Só tentando pra ter ideia da dificuldade que é trabalhar a rima cantada dentro da cartesiana norma culta portuguesa. Não é saber a língua, é conseguir combinar os grilhões que a “educação” te impõe, o preconceito do certo/errado, e passar a ser fiel àquilo do que você é feito.
Os caras vão além, ignoram os avisos gramaticais e as normas cegas da academia e tomam pra si a língua pátria tornando-a fluída e agressiva sem perder a sonoridade melodiosa. Trabalham com o que conhecem de melhor, o som, o som das palavras, a fonética, a língua que realmente conhecem aquela que ninguém ensinou, mas que absorveram no ar, no tapa, no chão de terra, misturam com tudo que vêem e escutam. A rima não é rica ou pobre, é urbana, é deles, é foda! E vão levando, destilando nas batidas, nos riffs, nos samplers, suas verdades, abrindo a ferida e cutucando a gangrena, e eu fico aí fudido de tesão por esse som que cria entorno do relato cru a atmosfera de êxtase sonoro sem o qual essa verdade perderia o prumo.
McMarechal, aqui no Balneário Decadente, Kamau, Emicida, Inquérito, Slim Rimografia &Thiago Beats e Parteum na paulicéia, Versu2 e Daganja da cidade do Salvador, Gurila Mangani de Beagá e tantos outros em tantas outras frentes, que ignoram os limites aos quais tantos se renderam e vão seguindo em frente, ladeira acima. A língua que eles falam é a mesma que sempre esteve lá nas margens da sociedade que os pariu, a diferença é que agora eles a transformaram em música, de novo! E não pense que brotaram do nada: são velhos, tão velhos quanto o samba marginalizado, quanto a miséria, quanto o racismo, quanto a opressão... Eles são a renovação de décadas de cascas grossa, são irmãos do funk, órfãos do samba. E como deve ser, a geração que renova também inova, transforma e, por partir de base sólida, avança mais rápido. Pra eles a música é estandarte de luta, é elemento explosivo, reativo, provocador, e responsável. Vejo na bilha dos caras que eles sabem muito bem o peso que tem o verso que empunham, da responsa que carregam nas mãos por ter transformado microfones e picapes em armas de libertação em massa. Esse som, que cada vez mais transborda das periferias, vai ecoando da boca da molecada e se propagando, quem sabe provocando uma juventude emudecida pela guetificação a, não só manter-se de pé, mas dar um passo à frente.
Sou do rock, é o som que me move, que me dá tesão, alimenta minha raiva do erro, e também meu despertar político, da onde absorvi aos poucos a mensagem de que existia bem mais do que meus olhos podiam ver. Mas vejo no som desses caras a mesma força vital que tornou o rock perene. Sobre o hip-hop nacional, assim como qualquer outro estilo de música, não posso ir além dos instintos que me provocam. Não sou letrado no tema, nem mesmo conhecedor do movimento; sei nem se eles mesmos se confessam movimento – é, porquê movimento são de fato, em movimento seguem - mas fico acelerado quando a música põe a cara pra bater, com a guarda fechada e a base armada.
Exagero? Pode até ser, mas antes escute esses caras, depois me diga que exagerei, mas quero ver me dizer que estou errado...

5 Comentários:

Guto Senra disse...

A popularização desta vertende musical se torna cada vez mais profunda e popular pelos mesmos motivos que levam a inclusão social de determinadas camadas da sociedade urbana.
É algo parecido com que acontece no interior do país, o sucesso de ritmos regionais e completamente típicos de cada região, seja no sul do país ou no norte.
A parte boa do movimento hip hop é encontro da carência de menos abastados, o que é um fato, com um pouco do exercício da língua, na forma mais frenética com que pode verificar.
A parte ruim é que afasta este mesmo plantel dos valores que resumem nossa nação, adotanto um ritmo tipicamente estrangeiro no seu dia a dia.
Mas quem somos nós para julgar a qualidade cultural que isto e tantas outras influências nos acrescenta? Até onde eu sei, o rock também não veio nas caravelas.

Guilhermé disse...

Tudo é influência.. do rap cru às misturas c/ referências daqui e de fora. Não tem errado aí, pq se a música tá engajada na transformação social, o som q eles usam é indiferente, desde q feito com qualidade e comprometimento, e isso eles têm a balde. É como no rock, onde tem lugar pros Ramones e pros Raimundos e pro Matanza, claro! Influência é algo que se absorve experimentando. Músicos, no caso rappers e DJs, são esponjas por natureza, velho, qto mais se ampliar o horizonte deles, mais absorvem e mais rica fica sua música. Cabe a nós oferecermos como consumidores o resto do país pra eles absorverem. E vamo q vamo!

FSB disse...

Caraca. Nunca vi um comentário tão difícil de escrever. Já escrevi uns 10 e sempre apago e escrevo de novo. Até que agora atentei o porquê. É isso. Já tá tudo dito.

homensdopantano disse...

gostei do artigo - deveria ter nos citado hehehe - novo disco virá

Guilhermé disse...

Verdade velho, faltou vcs nessa.
Abraço.